Textos


As bocas do lixo.

Do minúsculo vidro transparente
da janela  que divisa a parede da edícula
vejo-o se alimentar dos restos
come, sem pestanejar e oferece a seus rebentos

Seu olfato a muito viciado, não permite o enjoo
o bicho mastiga, sem saborear, devora e engole
fitando  nos olhos a companheira dessa e de outras,
não hesita, não para, só come e consente, calado

que dia triste este que me encontro,
que hora longa, essa que não passa
e este pobre bípede, sobrevivente
que se alimenta sem parar

não vejo, senão, sua fome voraz
que ultrapassa o inimaginável,
que fome audaz a transmutar este pobre
bicho racional, que segue sem raciocínio

e come e guarda, não há filtros ou exames
tudo lhe serve, já que nada tem.
Ouço os seus comados imperativos a determinar
sempre em direção aos pequenos; vamos, vamos

II - Cai a chuva:

Ainda pelo minúsculo vidro transparente da janela
vejo a chuva fria que agora cai e molha as suas poucas vestes
os pingos d’água, derribados pela sua fronte, constantes
chegam as suas pálpebras como lágrimas atrozes

Me pergunto: por quanto tempo e, em quantas vozes
sofre esse animal em silêncio, pastor de seu rebanho?
para onde irá? se lhe foi regalado o dom da vida errante!
quem lhe socorrerá? quem o livrará da angustia de viver e nada ser?

Molha-se o tempo todo com as águas que sobram do céu
molham-se; sua companheira e sua prole, e comem
e se vestem com os restos dos descartes dos hospitais
o vento fresco, quase gélido, lhe faz pensar na noite,

na espera de um agasalho que lhe livre a dor do frio,
segue sofrendo, comendo, sem critérios ou filtros.
É o medo de morrer de fome que pouco a pouco
lhe presenteia com a morte e lhe escreve a irremediável       
sentença abrupta de viver em dias contados. 
 
 
III – Da rua a casa

Pela rua caminha aquele ser misantropo e triste
pisando o chão de terra batida, esquálido, indigesto.
Olhos postos em si, não descobre coisa alguma,
ainda que não concorra contra, nem mesmo assim!

Dura é caminhada até a choupana, simples
longa é a hora mais perversa de não ter o que ser
quantos muitos esquecidos, sonhos desperdiçados
improvável vida descente, futuro que corre amordaçado

E a sua cria?  o que dizer, como não perecer tão obvio ?
- se o retrato da mais densa miséria só lhe abre portas nefastas?
Quem se prontificará a sofrer essa dor? quem a abrandará?
A casa de papelão que teme a chuva tanto quanto o sol

só lhe permite pensar que amanhã será um novo dia
pra sair, sonhar, comer, sem exames, sem filtros
é um dia como outro para se alimentar
de bichos, de vísceras, de restos e de sobras.   
                                                                                                             
Inspirado no Poema O bicho de Manuel Bandeira.  

Taciano Minervino
Recife, PE.  00:54hs, 01.01.2018



 
Taciano Minervino
Enviado por Taciano Minervino em 09/01/2018
Alterado em 09/01/2018
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