Textos


A moléstia

Deu-se por despercebida, quando pode observar sua fraca respiração naquela madrugada fria, quase gélida, em que se encontrava, em casa de seus pais. Era como se algo a sufocasse, como se fosse acometida por uma dor descomunal, que pouco a pouco lhe convalescia.
 
             Não hesitou, andou, falou, cuspiu no chão do quarto aveludado, afinal sabia de si e, que em poucos minutos entraria por uma via de acesso nunca antes trafegada. Pela janela observou a madrugada se desenvolvendo, viu ali alguns casais, que se acariciavam intimamente, viu até mesmo, o vizinho de infância, por quem sempre foi apaixonada, fumando solitário um cigarro, na calçada.
 
               Com a compreensão do mundo em si , andou por vinte minutos sem ar, com a pele fria, seu corpo branco, foi pouco a pouco se despindo e, ela lembrando de tudo; das viagens, das amigas que a esquecera desde que souberam de sua nova condição, dos amores que vivera, até mesmo do ultimo amor que a sentenciara a morrer.
 
Os remédios prolongavam sua vida, mas, o fato é que ela estava tão cansada de tudo aquilo, a cada coquetel que engolia pensava em quanto mais tempo de vida teria, animava e desanimava, oscilava seu humor entre o que era e o que poderia ser, contava com o futuro, mas não o via em belas imagens, e a noite ao dormir havia sempre por companheiro um jovem de baixa estatura que lhe encaminhava por caminhos obscuros e devassos, pelos quais gostava de ir, mas ao passo em que ia, temia de lá não voltar.

          Essa era imagem que lhe incomodara por todo o dia, embora naquele dia fosse em especial bem mais intensa, e lhe acompanhou por toda a noite, e finalmente naquela madrugada a acordou lhe sugando todo o ar. Pela primeira vez, ao regressar da janela de onde fitava, nua, seu antigo amor infantil, deu-se com a figura do anão dos seus pesadelos, era ele, em carne e osso , bem mais carne que osso, por ironia do momento. Com seus olhos esbugalhados, nada disse e ela despida como estava, buscou vestir-se, mas, de nada adiantou, ele aproximou-se e disse-lhe que o adiantar da hora era mais que necessário e, que ele não poderia se deter tanto tempo ali com ela, e que tanto ele quanto ela precisariam ir .

Nesse momento ela declinou e lhe perguntou:
- Pra onde vamos?
- O que você quer comigo?

Ele respondeu em uma língua inaudível, impossível de se compreender, apenas gesticulou com as suas pequeninas mãos que estava na hora de irem.
Ela então chorou e recusou-se. Sentou-se na cama do quarto de dormir e ali mais uma vez pensou em tudo que fizera, clamou por Deus, pelos santos e anjos, dos quais era íntima até os quatorze anos, mas, dos quais se afastara, no melhor dizer de sua mãe, os abandonara, e por isso sofria tanto. Não adiantava ninguém estava consigo para lhe auxiliar naquela agonia terrível.

            Ao olhar mais uma vez sua tez branca, como um capucho de algodão, observou que a brancura era violada pelos sacromas que se espalhavam pelo seu corpo e, pelos quais confirmara sua pobre condição de moléstia, mas, nada era pior que a indiferença dos amigos de trabalho, a morte do amado, a distância dos pais e a omissão da sua mãe, a quem já não via a quase dez anos, depois que partiu para uma vida independente, a exceção deste momento em que regressara, embora mesmo de volta era como se não estivesse, era como se nunca houvesse voltado.

            Sentia muito pelo silêncio perturbador que rodeava as refeições na imensa sala de almoço e jantar, da casa que não podia percorrer sem ressalvas, para não ser avistada pelos convivas da sociedade local, sempre presentes nos jantares familiares, e até das empregadas que lhe tratavam com tamanha indiferença, sempre fazendo os mais terríveis comentários, à boca pequena.

- Aquela lá foi estudar fora e se lascou, voltou podre!

Era isso que doía mais? - não, claro que não.

                 A maior dor era não tê-lo por perto, aquele amor bandido, nefasto que só a levava para os caminhos menos indicados, mas, que a fazia enlouquecer, capaz de lhe proporcionar as piores das loucuras, só para surpreende-la, e ela a se apaixonar por qualquer gesto simples, afinal, em sua vida de menina rica nunca se preocupou com o simples, o menos, o menor, havia sempre tudo que quisesse e jamais quem a objetasse ou lhe oferecesse uma contradita e, assim se fez a menina em médica de respeito e equilíbrio até que um bon vivant oportunista a apresentasse a um lado mais "leve" da vida, e eventualmente um outro mais obscuro, com todos os tipos de leviandades e ácidos que pudesse experimentar. A partir disso, foram inúmeros amantes, ficantes, festas, amigos "duradouros", da eternidade de quase uma noite inteira, e a vida seguiu, alegre, até que a "fatura" chegou, cobrando caro e, o pior; sem poder ser liquidada.

             A dor aguda e a falta de ar perturbadora não lhe deixaram em paz, mas, finalmente com o clarear do dia, viu os primeiros raios de sol, sentiu um cheiro enorme de sândalo no quarto de dormir. Era um balsamo tão forte que lhe percorria o corpo e a sua volta o quarto de dormir fez-se em um caleidoscópio brilhante, lembrou-se de Manu sua primeira boneca, que lhe acompanhou por tanto tempo, lembrou-se sua avó Maria Ana, que de Minas sempre lhe enviava as coisas mais gostosas de se comer, pediu em silêncio, perdão aos pais que tanto sofreram com a noticia fatídica. Pela primeira vez na vida sentiu-se em paz consigo mesma e dormiu longamente, nua em pelos, e com os cabelos desmazelados, encontrara-se com o único mal irremediável e seguia obediente e silente, mas, desta vez sem o anão, sem culpas, sem dores, somente com esperanças e, muito consciente.


 
Taciano Minervino
Enviado por Taciano Minervino em 09/12/2017
Alterado em 11/01/2018
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